Uma conversa com Jean-Marc Gallot, CEO mundial da Veuve Clicquot/LVMH, sobre o sucesso comercial da marca no Brasil e os detalhes de produção do exclusivo Vintage 2008, que chegará ao país até o final de 2016

Quando a expressão empoderamento, hoje em moda, e o próprio movimento feminista sequer existiam, entre os já longínquos séculos 18 e 19, ela já reinava soberana no mundo dos vinhos, território desde sempre dominado pelos homens. Barbe-Nicole Ponsardin, a viúva (veuve, em francês) Clicquot, é quem passou a dar as cartas, aos 27 anos, na pequena vinícola familiar situada em Reims, a 144 km de Paris. Após a morte precoce de seu marido, em vez de confinar-se entre a sala de estar e a cozinha, como ocorria com a maioria das mulheres da época, e mesmo sem nenhuma educação formal para os negócios, transformou em poucas décadas sua empresa em uma das casas de champanhe mais famosas do planeta e no império que a maison, que integra o gigante LVMH Group, é até hoje. Se o frei Dom Pérignon criou o champanhe, Madame Clicquot o reinventou, aperfeiçoando-o de tal sorte que chegou ao ponto de a marca tornar-se sinônimo de espumante francês mundo afora.

Entre outros méritos, a grande e eterna dama de Champagne inventou, por exemplo, com a ajuda de seu mestre de adega Antoine de Müller, a table de remuage — uma mesa de madeira com furos circulares que permitia à garrafa de vinho ser presa sur point (de ponta-cabeça após centrifugação manual) e o dégorgement (degolação ou eliminação) de restos de  leveduras  e sedimentos  acumulados no gargalo para posterior remoção, em um processo de purificação e clareamento da bebida, tornando-a mais cristalina e inaugurando a produção em larga escala do champanhe. Durante os primeiros anos, Barbe-Nicole conseguiu que o processo se mantivesse em segredo. Mas, hoje em dia, tal método é utilizado por todos os produtores de espumantes. Herdeiro dessa inovação bicentenária criada por Veuve Clicquot em 1816 e de todo o legado de ousadias e prestígio internacional da marca, o executivo Jean-Marc Gallot, atual presidente mundial da Veuve Clicquot, conversou com Versatille, em sua recente passagem pelo Brasil, no fim de março, durante o lançamento do Vintage 2008, que desembarcará no país até o final do ano. Confira, a seguir, os momentos mais importantes do encontro e todos os detalhes de elaboração desse supercuvée de exceção.

VERSATILLE — Você é nascido em que região da França e quais suas primeiras memórias do vinho? JEAN-MARC GALLOT — Sou de Paris, classe de 1967. Moro ainda hoje na capital francesa com minha família. Tenho quatro filhos. Minhas primeiras lembranças desse universo fascinante, que é o do vinho, me remetem à casa do meu avô, que me fez provar alguns vinhos da Borgonha. Era bem criança e não me recordo a idade exatamente os rótulos que provei. Mas sabe aquele tipo de situação em que os avós fazem os netos experimentar o vinho com dedo? Pois bem: foi exatamente desse modo comigo! Saberia, tempos depois, já adulto, que eram vinhos bastante especiais.

VERSATILLE — Antes de assumir, em 2014, a presidência da Veuve Clicquot, você comandou grandes maisons de luxo do mundo da moda, como Fendi, Louis Vuitton e Christofle.  O que há em comum entre esses dois segmentos e quais os principais desafios?  GALLOT — Sob o ponto de vista do produto de altíssima gama, as equipes devem ter liberdade para criar, seja no segmento de moda, seja na elaboração de champanhes premium. O principal desafio para ambos é inovar e proporcionar aos consumidores o elemento surpresa.

VERSATILLE — O chef de cave Dominique Demarville é, há uma década. o responsável pelos champanhes da Veuve Clicquot. Na taça é possível notar o seu estilo ou ele preserva a fórmula da maison consagrada há mais de dois séculos por madame Ponsardin?  Qual a assinatura e o estilo que caracterizam os champanhes produzidos pela maison? GALLOT — Dominique, nosso chef de cave desde 2006, aprendeu a reproduzir o estilo da maison com Jacques Péters, que foi seu antecessor. Esse estilo é definido por uma predominância de Pinot Noir e Chardonnay, mais do que Pinot Meunier. A parcela dos vinhos de reserva que entra na composição de vinhos especiais que não são millésimés varia entre 25% e 35%, o que faz manter o estilo da maison. A seleção dos crus também é primordial. Além disso, os champanhes Veuve Clicquot têm um tempo de envelhecimento sempre mais longo que o exigido em lei. Nossos champanhes “não vintages” (de mais de uma safra) são conservados em adega no mínimo 30 meses e os vintage (de uma única safra excepcional) envelhecem de cinco a dez anos.

VERSATILLE — E qual o percentual dessas variedades na composição do Vintage 2008? GALLOT — A Pinot Noir, com 61% do assemblage (mistura de diferentes tipos de uva), é originária do sul da Montagne de Reims e do Vale do Marne em Champagne, dos Grands Crus e Premiers Crus: Ambonnay, Bouzy, Tauxières, Avenay e Ay. A encosta norte da Montagne de Reims também está presente: Verzy, Verzenay e Ludes. A variedade Chardonnay, com 34%, vem inteiramente da Côte des Blancs (Mesnil sur Oger, Oger, Vertus). Já os 5% da Pinot Meunier provêm da Montagne de Reims (Ludes) e do Vale Marne (Dizy).

VERSATILLE — O que esperar do 2008 no copo? GALLOT — Como todos os demais vintages da maison, esse champanhe premium traduz, de modo intenso e poderoso, uma colheita excepcional. A vindima de 2008 transcorreu em condições climáticas e de amplitude térmica excepcionais em toda a região de Champagne, com as uvas amadurecendo maravilhosamente bem. Além disso, ele apresenta um grande potencial de envelhecimento e evolução para até 2030

VERSATILLE — O uso de madeira na vinificação também é outro diferencial desse vintage, não? GALLOT — O 2008 representa para a Veuve Clicquot o retorno da maturação de vinhos em barris de carvalho, além de ser o primeiro vintage criado por Dominique Demarville. Impressionado com a dimensão dos sabores dos nossos vintages, ele quis fortalecer ainda mais a expressão desses champanhes, criando assim um novo “vinho-assinatura”

VERSATILLE — Poderia explicar melhor esse conceito de “vinho-assinatura”?
GALLOT — Demarville teve a ideia de envelhecer alguns dos vinhos em grandes barris de carvalho, fato que levou a Veuve Clicquot a investir em uma tanoaria tradicional e construir 30 novos tonéis. A maturação em barris ajuda a extrair o melhor da colheita, graças à lenta micro-oxigenação que ocorre através dos poros existentes na madeira, o que ajuda a intensificar os aromas naturais do vinho. Ao adicionar de 5% a 10% dos vinhos envelhecidos em barris, é possível transferir-se mais amplitude e complexidade à bebida, porém, o estilo da maison é mantido. Tais vinhos envelhecidos em barris fazem o mesmo papel no assemblage aos das especiarias na cozinha. Ou seja: são o tempero do vinho, transportando notas de baunilha e outros aromas tostados da madeira.

VERSATILLE — E qual a importância do vinhedo para rótulos de exceção como o Vintage 2008? As uvas são provenientes 100% de vinhedos próprios? 
GALLOT — Em nossos vintages utilizamos apenas uvas de Premier Cru e Grand Cru. Cerca de ¼ do que elaboramos provém de vinhedos próprios, o restante compramos de viticultores selecionados, parceiros antigos e de nossa extrema confiança. São produtores super leais, alguns deles têm contrato conosco desde o ano de 1900, ou seja, há mais de um século! Há uma estreita relação com eles, que inclui a assinatura de contratos de exclusividade, de longos períodos de tempo, que varia, de 5 até 25 anos. Todos eles seguem regras estabelecidas pela Veuve Clicquot Ponsardin para a viticultura sustentável.

VERSATILLE — E quando será lançada a próxima safra? 
GALLOT — Nossos próximos vintages serão os de 2012 e 2015, certamente.

VERSATILLE — Quantas garrafas do Vintage 2008 foram produzidas e quantas serão comercializadas no mercado brasileiro? 
GALLOT — Por questões estratégicas e comerciais, não divulgamos números de produção. Mas a edição desse vintage representa menos de 10% de tudo que elaboramos.

VERSATILLE — Além do de 2008, quais outros anos foram produzidos vintages pela Veuve Clicquot? 
GALLOT — Esse Vintage 2008 — o 65º da maison desde o seu primeiro vintage, de 1810 — representa o terceiro da década. Antes dele havíamos lançado apenas os de 2002 e o de 2004.

VERSATILLE — Além do de 2008, quais outros anos foram produzidos vintages pela Veuve Clicquot? 
GALLOT — Esse Vintage 2008 — o 65º da maison desde o seu primeiro vintage, de 1810 — representa o terceiro da década. Antes dele havíamos lançado apenas os de 2002 e o de 2004.

VERSATILLE — Embora o Brasil seja hoje um país de clima tropical, produza bons espumantes e esteja entre os oito maiores importadores de Veuve Clicquot do mundo, a preferência do consumidor brasileiro ainda recai sobre os tintos. Qual sua sugestão para mudar esse cenário?
GALLOT — Sim, essa é uma realidade do mercado brasileiro. Mas isso pode ser um trunfo, porque há muito espaço para crescer. Sempre buscamos novas maneiras de consumir champanhe e de proporcionar essa experiência às pessoas. Nosso papel é convencê-las de que um espumante de alta qualidade é perfeito não só para momentos especiais mas também para acompanhar uma refeição do início ao fim, da entrada à sobremesa, como nenhuma outra bebida é capaz.